domingo, 27 de maio de 2018

Entre Guerra e Paz, a obscura luminosidade de Joyce DiDonato


A tournée de "In War And Peace", um recital barroco de Joyce DiDonato com a orquestra Il pomo d'Oro, vai já na 3ª rodada pela Europa e Américas; finalmente chegou a a Lisboa (muito depois de Oviedo, onde tentei ir vê-la mas foi-me impossível).

De longe o ponto alto da programação da Gulbenkian para 2018, cedo esgotou, como não podia deixar de ser. Já tudo foi dito sobre a produção e o canto de DiDonato, resta-me dar conta de que estive lá, foi sublime, inevitável e irrepetível - mas nem tudo me agradou, como também era de esperar.

Recebi logo de entrada um envelope assinado pela Joyce a dar conta da mensagem intencional que inspirou a récita - confrontar guerra e paz na arte musical, por um lado, e procurar saber caminhos de superar o caos ameaçador que, pensa ela, paira sobre o mundo. Para isso faz um inquérito, sim!, um inquérito a saber como cada um encontra espaços de paz e conforto nestes dias revoltos. A falar verdadade , boa parte da resposta dá-a ela própria, no concerto (com música!) e na mensagem transmitida no final.

Lá fui escrevendo qualquer coisa como - a escravatura ? acabou; as pestes e as pragas ? acabaram; os gulags e auschwitzs ? acabaram; portanto as três mais diabólicas maldições da humanidade foram ultrapassadas, e foi a Humanidade que as conseguiu debelar. Não será razão para confiar que mais maldições tenham também os dias contados ? O verdadeiro problema está em saber se há sempre novas maldições no horizonte à espera do momento próprio. Pelo menos, nos intervalos, que haja música, muita Música.

Iniciando com as terríveis "Scenes of horror, scenes of woe" da ópera Jephta de Händel, que nos pôs em contexto, Joyce começou de facto com o genial "Lamento de Dido" de Purcell, que nunca ninguém cantou melhor. O discreto mas muito requintado acompanhamento do Pomo d'Oro ajudou. Voltamos à angústia mais desesperada com Händel na ária de Agrippina, "Pensieri, voi mi tormentate". Joyce DiDonato tem uma expressão corporal de verdadeira actriz, e era mesmo chocante ouvir e ver a que ponto estava atormentada pelos pensamentos, a voz áspera correndo aos extremos da escala com um domínio inacreditável. Mas foi o final "Lascia ch'io pianga" que mais me arrebatou. Joyce cantou a ária deitada/sentada no chão do palco, com uma contenção, uma concentração, uma emoção de arrepiar. Não foi apenas "cantar uma ária", como num recital qualquer; foi todo um programa, teatro, canto, coreografia, música, iluminação... inesquecível.

A segunda parte, já sob o tema da paz, foi mais levezinha e bonita, no bom sentido. "Crystal Strings i Murmurs flowing" de Händel é muito bucólica, e o "Da Pacem, Domine" de Arvo Pärt surgiu como um interlúdio orquestral a introduzir uma paz interior, sobre um cenário projectado de uma capela na obscuridade  por onde entram fragmentos da luz do sol; entretanto as (por vezes estranhas) projecções no écran de fundo foram substituídas pela vista dos jardins da Fundação através de vidro semi-transparente, um fundo de verdura  a que já estamos habituados - mas nunca cansa. E com esse cenário tivemos o alegre dueto para canto e flauta "Augeletti, che cantate", Händel mais uma vez, e o celebratório "Dopo Notte" para nos levar a bom porto:

Dopo notte, atra e funesta,
splende in Ciel più vago il sole,
e di gioja empie la terra;

Mentre in orrida tempesta
il mio legno è quasi assorto,
giunge in porto, e'llido afferra
.

                            Depois da noite, sombria e funesta
                            No céu resplandece mais vivo o Sol
                            E enche a Terra de alegria.

                            Enquanto numa horrível tempestade
                            O meu barco quase naufragou,
                            Entra agora no porto e acosta ao cais.


Seguiu-se o discurso socio-ético-politico de Joyce, e sempre tivemos um encore, um só, mas foi, imagine-se, a canção 'Morgen' de Strauss. Modernidade e intensa interioridade para um final perfeito.

Volta sempre, Joyce DiDonato. E já agora, vem ao Porto, vem à Casa da Música que é uma boa sala de concertos e sabe receber graças quase divinas como a tua.

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Não gostei: da maquilhagem feia e gore que Joyce usou em todo o concerto; e de um bailarino que andou por lá a fazer umas "fosquinhas", como se diz na minha terra.



quarta-feira, 23 de maio de 2018

Gosta de violoncelo ? Anner Bylsma traz o séc. XVII até si.


Depois de assistir ao 'War and Peace' de Joyce DiDonato na Gulbenkian, a ser relatado para a semana.
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Preciosidades, discos para um ilha deserta, incontornáveis ou obras de referência, são felizmente bem mais do que uma mão-cheia: esgotam várias prateleiras.

Cá está mais um. A-d-o-r-o, apetece dizer. A leveza inventiva dos senhores Gabrieli, Frescobaldi, Jacchini, o violoncelo barroco teso, saltitante e exímio de Anner Bylsma... Como seria estar num salão da nobreza italiana, no século XVII, a assistir a um concerto destes? Todos aqueles enfatuados e postiços aristocratas concentrados e deliciados, a apreciar? Não me parece. Todos a falar, sem dar atenção à música? Criminosos, para a fogueira. Ou só assistiam uns poucos nobres melómanos, com as suas damas?

Anthonie Palamedesz, Festa Musical

Nem faziam a mínima ideia de como é eterna a beleza destas obras, e como quatro séculos depois as apreciaríamos ainda em todo o seu esplendor, mas em nossa casa, emitidas por umas caixas mágicas cheiras de fios.


Giuseppe Maria Jacchini : Sonata op.3-9


Giovanni Gabrieli : Ricercar V .


Giovanni Gabrieli : Sonata em La.


Mais:
https://www.youtube.com/results?search_query=fukax3+bylsma

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Elogio do silêncio (mas não o four-thirty-three de Cage)


Vivo imerso em ruído, a poluição sonora é mais insidiosa e deprimente que a sujidade no ar ou na água. O ruído é obra do homem, claro, que só produz silêncio como rara excepção, nas catedrais e nas bibliotecas.

Imagino um planeta desabitado, pode ser há 500 000 ou daqui a 500 000 anos. Um silêncio quase absoluto, pontuado pelo canto das aves, o vento na folhagem ou a chuva que cai sobre o lago - que são formas sonoras de silêncio. Haverá ruído de longe a longe, um trovão, o ranger do glaciar na moreia, uma alcateia que uiva. São só curtos intervalos de som, nada desta permanente gritaria urbana, social, televisiva. Preciso de um silêncio assim, permanecente - ele virá um dia em definitivo, bem sei, mas preciso agora de viver com silêncio.

Calem-se, por favor. Encerrem o festival. Desliguem tudo, motores e écrans e campaínhas. Mozart só um pouquinho, de longe a longe, pianíssimo. Quero a Terra-mãe solteira de nós.

E não façam do silêncio uma forma arrogante e perniciosa de ruído, como fez John Cage com a 'obra' que quer fazer passar 4' 33'' de um nada fundamentalista como obra artística. Para lixo, já basta o barulho do dia-a-dia.

Um poema de Grace Wells:

                                  In the Museum of Silence

                                  For the full effect we encourage
                                  you first hear its opposite -
                                  in this room are the drawers of sound.

                                  Highway traffic. The demands
                                  of children. A rock festival.
                                  A prison wing.

                                  Through the double doors
                                  you'll find the hush
                                  that falls with snow.

                                  Upstairs we have replicated 
                                  the British Library
                                  and a Spanish cathedral.

                                  And the exhibition progresses
                                  you'll hear the different qualities
                                  of silence, its range of depths.

                                  Our archive has recordings
                                  from across the globe:
                                  Arctic quiet from Baffin, the scorched Sahara.

                                  We gave samples from below the ocean
                                  and from caves within the earth.
                                  And from outer space.

                                  Our final chamber is wired straight
                                  to the Himalayas. We recommend
                                  you lie downin there and listen.

                                  Visitors can sign the guestbook
                                  before they leave.

in Dark Mountain, vol. 6